Friday, August 04, 2006

QUANDO A PERDA É INEVITÁVEL ( apenas um teste..okay?)

(Texto teste - a proposta são os resumos das aulas e reflexões.)
Alguém pediu-me para escrever sobre a perda. Você certamente concordará comigo que falar sobre a perda é falar sobre nós mesmos. A perda, o amor, a saudade, a angústia e a alegria são coisas que moram dentro de nós. Contudo, alguém pediu-me para falar da perda de alguém que amava e para ser honesto, para sermos honestos, todos nós já perdemos alguém que amávamos.Mas o que é a perda? A melhor definição que já ouvi é a de que ela é um vazio. Pode ser isso. Uma sensação de vazio. Mas quando perdemos alguém que amamos, a sensação é de um vazio ou até mesmo de um desencontro. Mas porque desencontro? Bom, para isso vamos imaginar quando um amor começa. Começa quando um lugar está vazio e chega alguém e deixa uma flor. O que era escuro e chato fica colorido. Vocês já foram em um campo com flores? Pois é. Alguém deixa uma flor e seu campo floresce, e quando não se tem mais flores pode parecer que o jardineiro errou de campo, não o encontrou, ou, desencontrou.Quando não temos ninguém é como se o nosso campo não tivesse flores, tudo está vazio e chato. Uma professora disse-me que hoje em dia os alunos já não gostam de livros. Pode ser, mas a minha opinião é a de que eles ainda não aprenderam a lidar com o medo da solidão. Preferem sair, vídeo-games e tantas outras coisas barulhentas justamente para não terem a sensação de sentirem-se sós.Têm medo do vazio e do chato. Do campo sem flores. Um livro requer tempo. Não é algo imediato, mas quando mergulhamos nele podemos viajar e imaginar. Não nos sentimos sós.Mas já viram também um campo que fora devastado por uma queimada. É inversamente terrível. A sensação de um campo após uma queimada é a de que nunca mais ele será o mesmo, mas depois chega a chuva, um pássaro deixa uma semente e aí tudo nasce novamente. Sabe o por que? Porque a terra ainda está viva.Mas vamos agora para um caso prático. Certa vez presenciei um paciente queixando-se de que sua namorada havia abandonado-o. Depois de longos três anos de namoro ela havia pedido um tempo. Ele chorava muito e disse que sentia-se traído e enganado. A dor da perda era tão forte que ele já não sabia mais o que era viver sem pensar nela e assim, todo o seu o pensamento estava empenhando na busca de explicações. Pensava dia e noite e já não fazia mais nada com alegria. Tudo tornou-se cinzento. O desespero havia chegado. A palavra des- espero( sem esperar), aquele que já não espera mais nenhuma notícia boa que possa ajudá-lo. É o desespero.Para entender este des-espero podemos recordar de cenas de um campo de concentração nazista. O caso aqui é o de Auschwitz. Neste campo os judeus trabalhavam muito mas eram torturados a todo tempo. Certa vez um judeuzinho perguntou ao seu torturador porque não o matava já que o odiava tanto. O torturador respondeu que torturava-o mas não matava-o porque queria mantê-lo com desesperanças mas também com esperança e explicou que a desesperança servia para que ele desistisse de fugir, mas um pouco de esperança era bom porque ela mantinha –o vivo, ou seja, quem vive sempre acha que existe uma saída.O des- espero é isso. É um estado onde não enxergamos saída. Perguntava- se sobre o seu relacionamento, se ele havia feito tudo o possível ou se ainda restaria algo por fazer para que então ela voltasse a amá-lo. O que ele acabou percebendo é que quanto mais ele a procurava, mais este des-espero aumentava. Ele havia perdido-a e a distância entre os dois era imensa. Muito envergonhado, ele até confessou que sentia muitas vezes vontade de que ela não existisse. A dor era tão forte que muitas vezes sentia um desejo de acabar com ela. Estava presenciando uma mistura confusa de ódio e amor.Este estágio é muito comum quando nós amamos uma pessoa e sentimos que estamos perdendo- a e não aceitamos a perda, o não. Talvez o que nós não saibamos quando nos encontramos nesta situação é que quando uma pessoa quer ir devemos deixá-la. Se ela for embora e não mais voltar é porque ela nunca foi nossa de verdade. A liberdade humana na sua derivação de direito de escolha deve ser sempre respeitada e isso nós jamais deveremos perder de vista. Uma vez lembro-me de um menino que tinha uma bola. Organizamos dois times e justo o dele perdeu. O que aconteceu depois é que ficamos sem bola para jogar, ou seja, ele levou a bola embora por que não soube perder. Acredito que ele foi para casa chateado por ter perdido a partida, mas nós ficamos rindo, contando piadas mesmo sem ter a bola. Parece que havíamos aprendido que em situações onde não se pode fazer nada o melhor a fazer e aceitá-la. Esta é uma outra face do des-espero e talvez a mais saudável. O saber aceitar e por incrível que pareça, esperar no des-espero. Aconselho aqui também o uso de um pouco de indiferença do menino que dava risada do moleque que levou a bola. Pode parecer para você um certo deboche, mas tudo na medida exata é sinal de maturidade.Freud já dizia que viver bem é saber lidar com as frustrações de uma vida, saber aceitar os nãos, sim, não no plural porque eles são muitos. O fato deste rapaz ficar buscando sempre notícias da sua ex- namorada, de saber onde ela estava e com quem estava acabou por desencadear um estado sólido de não aceitação da realidade, que infelizmente era de perda, é quando isso acontece, entramos numa espiral de auto destruição, sentimos aquela mistura ruim de ódio e amor, confusa e que nos faz muito mal. Despertamos em nós os sentimentos mais horripilantes e já não sabemos mais o que somos nem o que sentimos. Sabemos aqui que o ódio é um jeito diferente de amar, mas é tão maléfico que deve ser deixado de lado.E como naquela partida de futebol que acabou, na perda é necessário exercitar a indiferença. Quando a pessoa que nos deixou tornar-se alguém indiferente para nós, ou seja, tanto faz para onde ela foi ou ficou, aí estaremos numa posição saudável. Poderemos perceber que temos coisas boas na vida e que podemos construir muitas outras. Não devemos ter medo de seguir e nem deixar o outro porque certamente, se a gente deixar, a terra florescerá novamente.
By Marcelo Fernandes